A B C D E F G H I J K L M N O P R S T U V W X Z

Lendas e Narrativas (Tomo I)

A >> Alexandre Herculano >> Lendas e Narrativas (Tomo I)

Pages:
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14



"E nego eu isso?--replicou o outro frade.--O que digo é que me
parece impossivel, que elrei venha de feito, conforme a vossa
paternidade prometteu em sua carta. Ha muito que lá vae o meio-dia;
daqui a pouco tocará a vesperas e ás duas por tres é noite. Não
vêdes, padre mestre, a que horas virá a acabar o auto? E este
povo, este devoto povo que ahi está, que ahi vem, ha-de ir com
o escuro por esses descampados e serras com mulheres, com
raparigas..."

"Tá, tá--interrompeu o prior.--Temos luar agora, e vão de consum.
O caso não é esse, padre procurador, o caso é se está tudo aviado
para agasalharmos elrei e os de sua companha."

"Oh lá, quanto a isso, nada falta. Desde hontem que tenho tido
tanto descanço como hoste ou cavalgada de castelhanos diante
das lanças do Condestavel: o peior é que, segundo me parece, e
dizei o que quizerdes, opus et oleum perdidi.[1]"

"Não falta quem tarda: elrei não quebrará a palavra ao seu antigo
confessor. O que quero é que todos os noviços e coristas, que tem
de fazer suas representações no auto, estejam a ponto e vestidos,
para elle começar logo que sua senhoria chegue."

"Nada receeis; que tudo está preparado: do que duvido é de que
comecemos, se por elrei houvermos de esperar."

O frade mais velho fez a estas palavras um signal de impaciencia,
e sem dar resposta ao seu pyrrhonico interlocutor, estendeu outra
vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade
do habito uma especie de sobrecéu para resguardar os olhos dos
raios do sol, que, já muito inclinado para o occidente, batia
de chapa no portal onde os dous reverendos estavam altercando.

Porém, meio descoroçoado, o dominicano logo abaixou os olhos:
nem o minimo vulto se enxergava no horisonte; e neste abaixar
de olhos viu o cégo, que estava ainda assentado sobre o fuste
da columna.

Para escapar talvez ás reflexões do seu companheiro, o reverendo
bradou ao velho:

"Oh lá, mestre Affonso Domingues, bem aproveitaes o soalheiro!
Não vos quero eu mal por isso; que um bom sol de inverno vale,
na idade grave, mais que todos os remedios de longa vida, que
em seus alforges trazem por ahi os physicos."

Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal, e
encaminhou-se para o cégo.

"Quem é que me fala?--perguntou este, alçando a cabeça.

"Fr. Lourenço Lamprêa, vosso amigo e servidor, honrado mestre
Affonso. Tão esquecida anda já minha voz em vossas orelhas, que
me não conheceis pela toada?"

"Perdoae-me, mui devoto padre prior:--atalhou o velho, tenteando
com os pés o chão para erguer-se, no momento em que Fr. Lourenço
Lamprêa chegava juncto delle seguido do seu confrade Fr. Joanne,
procurador do mosteiro:--perdoae-me! Foi-se o vêr, vae-se o
ouvir. Em distancia, já não acérto a distinguir as falas."

"Estae quedo; estae quedo, mestre Affonso:--disse Fr. Lourenço,
segurando o cégo pelo braço:--O indigno prior do mosteiro da
Victoria não consentirá que o mui sabedor architecto e imaginador
Affonso Domingues, o creador da oitava maravilha do mundo, o que
traçou este edificio doado pelo virtuoso de grandes virtudes
rei D. João á nossa ordem, se alevante para estar em pé diante
de pobre frade..."

"Mas esse religioso--interrompeu o cégo--é o mais abalisado
theologo de Portugal, o amigo do mui excellente doutor João das
Regras, e do grande Nunalvares, e privado e confessor d'elrei:
Affonso Domingues é apenas uma sombra de homem, um troço de capitel
partido e abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto de
quem já ninguem faz caso. Se vossa caridade e humildosa condição
vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não
achareis n'isso muitos de vossa igualha."

"De merencorio humor estaes hoje:--disse o prior sorrindo.--Não
só eu vos amo e venero: elrei me fala sempre de vós em suas cartas.
Não sois cavalleiro de sua casa? E a avultada tença que vos concedeu
em paga da obra que traçastes, e dirigistes, em quanto Deus vos
concedeu vista, não prova que não foi ingrato?"

"Cavalleiro!?"--bradou o velho--"Com sangue comprei essa honra!
Comigo trago a escriptura."--Aqui mestre Affonso, puxando com
a mão tremula as atacas do gibão, abriu-o e mostrou duas largas
cicatrizes no peito.--"Em Aljubarrota foi escripto o documento
á ponta de lança por mão castelhana: a essa mão devo meu foro,
que não ao Mestre d'Aviz. Já lá vão quinze annos! Então ainda
estes olhos viam claro, e ainda para este braço a acha d'armas
era brinco. Elrei não foi ingrato, dizeis vós, veneravel prior,
porque me concedeu uma tença!?--Que a guarde em seu thesouro;
porque ainda ás portas dos mosteiros e dos castellos dos nobres
se reparte pão por cégos e por aleijados."

Proferindo estas palavras, o velho não pôde continuar: a voz
tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados cahiam-lhe
pelas faces encovadas duas lagrymas como punhos. A Fr. Lourenço
tambem se arrasaram os olhos d'agua, Frei Joanne, esse olhou fito
para o cégo durante algum tempo com o olhar vago de quem não
o comprehendia. Depois a idéa da tardança d'elrei e da tardança
do auto, que entrando pelas horas de ceiar e dormir iria fazer
uma brecha horrorosa na disciplina monastica, veio desperta-lo
como espinho pungente. Começou a bufar e a bater o pé, semelhante
ao corredor brioso do livro de Job e da Eneida. Entretanto o
architecto havia-se posto em pé: um pensamento profundamente
doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada,
e houve um momento de silencio. Por fim segurando com força a
manga do habito de Fr. Lourenço, disse-lhe:

"Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado
da Divina Comedia do florentino Dante."

"Li já, e mais de uma vez:--respondeu o prior:--É obra prima
daquellas a que os gregos chamavam epos, id est, enarratio, et
actio segundo Aristoteles; e se não houvesse nessa escriptura
algumas ousadias contra o papa..."

"Pois sabei, reverendo padre,--proseguiu o architecto, atalhando
o impeto erudito do prior,--que este mosteiro, que se ergue diante
de nós, era a minha Divina Comedia, o cantico da minha alma:
concebi-o eu; viveu comigo largos annos, em sonhos e em vigilia:
cada columna, cada mainel, cada fresta, cada arco era uma pagina
de canção immensa; mas canção que cumpria se escrevesse em marmore,
porque só o marmore era digno della: os milhares de lavores que
tracei em meu desenho eram milhares de versos; e porque ceguei
arrancaram-me das mãos o livro, e nas paginas em branco mandaram
escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporaes estavam
mortos, não o estavam os do espirito. O estranho a quem deram
meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram
nessa pedra que o meu alento não a bafejára. Que direito tinha
o Mestre d'Aviz para sulcar com um golpe do seu montante a face
de um archanjo que eu creára? Que direito tinha para me espremer
o coração debaixo dos seus çapatos de ferro? Dava-lh'o o ouro que
tem dispendido? O ouro! ... Não! OMeslred'Aviz sabe que o ouro
é vil; só nobre e puro o genio do homem. Enganaram-no: vassallos
houve em Portugal, que enganaram seu rei! Este edificio era meu;
porque o gerei; porque o alimentei com a substancia de minha
alma; porque eu necessitava de me converter todo nestas pedras
pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar
perpetuamente por essas columnas, e por baixo dessas arcarias.
E roubaram-me o filho da minha imaginação, dando-me uma tença!...
Com uma tença paga-se a gloria e a immortalidade? Agradeço-vos,
senhor rei, a mercê!... sois em verdade generoso ... mas o nome
de mestre Ouguet enredar-se-ha no meu, ou talvez sumirá este
no brilho de sua fama mentida..."

O cégo tremia de todos os membros: a vehemencia com que falára
lhe exhaurira as forças: os joelhos vergaram-lhe, e assentou-se
outra vez em cima do fuste. Os dous frades estavam em pé diante
delle.

"Estaes mui perturbado pela paixão, mestre Affonso--disse Fr.
Lourenço depois de uma larga pausa--por isso menoscabaes mestre
Ouguet, que era talvez o unico homem que ahi havia capaz de vos
substituir. Quanto a vós, pensaram os do conselho d'elrei que
deviam propôr-lhe vos désse repouso e honrado sustentamento para
os cansados dias. Ninguem teve em mente offender o mais sabedor
e experto architecto de Portugal, cuja memoria será eterna, e
nunca offuscada."

"Obrigado--atalhou o velho--aos conselheiros d'elrei pelos bons
desejos que em meu prol têm. São politicos, almas de lodo, que
não comprehendem senão proveitos materiaes. Dão-me o repouso
do corpo, e assassinam-me o da alma! Ácêrca de mestre Ouguet,
não serei eu quem negue suas boas manhas e sciencia de edificar:
mas que ponha elle por obra suas traças, e deixem-me a mim dar
vulto ás minhas. E demais: para entender o pensamento do mosteiro
de Sancta Maria da Victoria cumpre ser portuguez; cumpre ter
vivido com a revolução, que poz no throno o Mestre d'Aviz; ter
tumultuado com o povo defronte dos paços da adultera[2]; ter
pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido cm Aljubarrota. Não
é este edificio uma obra de reis, ainda que por um rei me fosse
encommendado seu desenho e edificação, mas nacional, mas popular,
mas da gente portugueza, que disse: não seremos servos do
estrangeiro, e que provou seu dicto. Mestre Ouguet, escholar na
sociedade dos irmãos obreiros[3], trabalhou nas sés de Inglaterra,
de França, e de Alemanha: ahi subiu ao gráu de mestre, mas a sua
alma não é aquecida á luz do amor de patria; nem, que o fosse,
é para elle patria esta terra portugueza. Por engenho e mãos
de portuguezes devia ser concebido e executado até seu final
remate o monumento da gloria dos nossos; e eis-ahi que elle chamou
do longes terras officiaes estranhos, e os naturaes lá foram
mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimarães.
Sei que não seriam nem elles nem eu quem puzesse esse remate; mas
nós deixariamos successores, que conservassem puras as tradições
da arte. Perder-se-ha tudo; e, porventura, tempo virá em que,
nesta obra dos seculos, não haja mãos vigorosas que prosigam
os lavores que mãos cansadas não poderam levar a cabo. Então
o livro de pedra, o meu cantico de victoria, ficará truncado.
Mas Affonso Domingues tem uma pensão d'elrei!.."

Em uma das casas que ficavam mais proximas, e de que fizemos
menção no principio deste capitulo, ergueu-se a adufa de uma
janella no momento em que o cégo terminava estas palavras, e
uma velha, em cuja cabeça alvejava uma toalha mui branca, gritou
da janella:

"Mestre Affonso, quereis recolher-vos? Está prompta a cêa, e começa
a cahir a orvalhada, que a tarde vae nevoenta."

"Vamos lá, vamos lá, Anna Margarida; vinde guiar-me."

E Anna Margarida, ama de mestre Affonso Domingues, saiu da porta
com a roca ainda na cincta, e o fuso espetado entre o linho e o
ourêlo que o apertava. Chegando ao pé do velho, tocou-lhe com
o braço, em que elle se firmou, tornando a erguer-se.

"Boas tardes, padre prior:--disse a ama, fazendo sua mesura,
seguida de um lamber de dedos, e de dous puxões nas barbas da
estriga quasi fiada.

"Vá na graça do Senhor, filha:--respondeu Fr. Lourenço, e
accresccntou dírigindo-se ao cégo:

"Meu irmão, Deus acceita só ao homem, em desconto da grande divida,
a dor calada e soffrida. Resignae-vos na sua divina vontade."

"Na delle estou eu resignado ha muito: na dos homens é que nunca
me resignarei."

E Anna Margarida, que tinha a cêa ainda ao lume, foi puxando o
cégo para a porta de casa.

"Ai, Affonso Domingues, Affonso Domingues! vae-se-te após a vista
o siso. Aborrida cousa é a velhice. Não vos parece, Fr. Joanne?"

Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que suppunha
estaria atraz delle; mas Fr. Joanne tinha desapparecido d'alli
manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Fr. Lourenço
viu-o em pé sobre uma pedra a alguma distancia.

O prior ia a perguntar-lhe o que fazia alli, quando o reverendo
procurador saltou a correr, bradando:

"Ganhastes, padre prior; ganhastes!... Eis elrei que chega."

E, com effeito, Fr. Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de
um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavalleiros, que com
grande açodamento descia para o vallc do mosteiro.

[1] Perdi o azeite e o trabalho: expressão proverbial.

[2] D. Leonor Telles, mulher d'elrei D. Fernando.

[3] Architectos sarracenos se espalharam pela Grecia,
Sicilia, e outros paizes, durante certo tempo: um avultado numero
de artifices christãos, principalmente gregos, se ajunctaram com
elles, e formaram todos uma corporação, que tinha suas leis e
estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por signaes.
Esta foi a origem da Maçonaria. Conversation's Lexicon.



MESTRE OUGUET.


Uma das innumeraveis questões, que, em nosso entender, eternamente
ficarão por decidir, é a que versa sobre qual dos dous dictados--voz
do povo é voz de Deus--ou--voz do povo é voz do diabo--seja o
que exprima a verdade. É indubitavel que o povo tem uma especie
de presciencia innata, d'instincto divinatorio. Quantas vezes,
sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal
navio saído do porto, tão rico de mercadorias como de esperanças,
se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o
tempo, e a voz popular renlisa-se com exacção espantosa. Assim
de batalhas; assim de mil factos. Quem dá estas noticias? Quem as
trouxe? Como se derramaram? Mysterio é esse, que ainda ninguem
soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro?
Mysterio. Não ha, nem haverá, talvez, nunca, philosopho que o
explique; salvo se tal phenomeno é uma das maravilhas do magnetismo
animal. Esse meio inintelligivel de dar solução a tudo o que se
não entende, é acaso a unica via de resolver a dúvida. Se o é,
ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.

Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos menção no fim
do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira á
planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja,
impaciente já pela demora do auto, começou-se a espalhar um sussurro,
que cada vez crescia mais: o motivo delle não era facil sabe-lo:
nenhuma novidade occorrêra; ninguem tinha entrado ou saido. De
repente toda aquella multidão se agitou, remoinhou pela igreja,
e principiou a borbulhar pelo portal fóra, como por bico de funil
o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e
todos queriam vê-lo descalvagar, porque D. João I, plebeu por
herança materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito
por uma revolução, e confirmado por cincoenta victorias, era o
mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis
da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em
outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre
a cota uma jórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em
punho, em maneira de caçada. Chegando á porta do mosteiro, onde
o esperava já Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de
um salto, e com rosto risonho e a mão no barrete, agradeceu sua
cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados à roda delle:
--"viva D. João I de Portugal: morram os castelhanos!"--grito
absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o
povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o
bramido que revela a sua indole sanguinaria.

Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente
elrei da vista da multidão, que tornou a sumir-se no templo para
ver o auto, que não podia tardar.

"Mui receioso estava que vossa real senhoria nos não honrasse
nosso auto; porque o sol não tarda a sumir-se no poente:--dizia
Fr. Lourenço a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.

"Bofé, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de
ter que levar a vossos pés mais uma mentira com os outros peccados,
que me não fallecem, se ámanhan me quizesse confessar ao meu
antigo confessor:--tornou-lhe elrei sorrindo-se.

"E certo estou de que entre todos os peccados de que terieis
de vos accusar, este não fôra o menos grave, e de que eu muito
a custo absolveria vossa mercê:--retrucou o prior, que tinha
aprendido ainda mais depressa as manhas cortezans no paço, do
que a theologia no noviciado da sua ordem.

"Mas para onde me guiaes, reverendissimo prior:--disse elrei,
parando antes de subir uma escada, para a qual Fr. Lourenço o
encaminhava.

"Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeição,
e repouseis um pouco do trabalho do caminho."

"Não foi grande o feito, para tomar repouso:--acudiu elrei:--que
de Santarem aqui é uma corrida de cavallo; muito mais para quem,
em vez de cota de malha, arnez e braçaes, traz vestidos de seda.
Despi-los-hei bem depressa, já que elrei de Castella quer jogar
mais lançadas, e não vieram a conclusão de treguas o Mestre de
Sanctiago com o Condestavel. Mas vamos, meu doutissimo padre;
mostrae-me a casa do capitulo, a que mestre Ouguet acabou de
pôr seu fecho e remate. Onde está elle? Quero agradecer-lhe a
boa diligencia."

"Beijo-vos as mãos pela mercê:"--disse mestre Ouguet, que, sabendo
da chegada d'elrei, e certo de que elle desejaria vêr aquella
grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da
comitiva:--"Se quereis vêr a casa do capitulo, vamos para a banda
da crasta."--Dizendo isto, sem ceremonia tomou a dianteira, e
encaminhou-se ao longo de um dos cubertos do claustro.

David Ouguet era um irlandez, homem mediano em quasi tudo; em
idade, em estatura, em capacidade, e em gordura, salvo na barriga,
cujos tegumentos tinham soffrido grande distensão, em consequencia
da dura vida que a tyrannia do filho d'Erin lhe fazia padecer
havia bem vinte annos. Desde muito moço que começára a produzir
grande impressão no seu espirito a invectiva do apostolo contra
os escravos do proprio ventre; e para evitar essa condemnavel
fraqueza resolvêra traze-lo sempre sopeado. Não lhe dava treguas;
se em Inglaterra o fizera muitos annos vergar sob o pêso de dez
atmospheras de cerveja, em Portugal submettia-o ao mais fadigoso
mister de cangirão permanente. Mortificava-o assim, para que não
lhe acudissem suberbas e velleidades de senhorio e dominação.
De resto David Ouguet era bom homem, excellente homem: não fazia
aos seus semelhantes senão o mal absolutamente indispensavel ao
proprio interesse: nunca matára ninguem, e pagava com pontualidade
exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e practico
do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre
o cadaver de seu pae para tocar a méta de qualquer designio
ambicioso: com tres licções de phrases oucas dava panno para
se engenharem delle dous grandes homens d'estado. Tendo vindo a
Portugal como um dos cavalleiros do duque de Lancastre, procurou
obter e alcançou a protecção da rainha D. Philippa, que, havendo
Affonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do mosteiro
da Batalha, mostrando elle por documentos authenticos ter na
sua mocidade subido ao gráu de mestre na sociedade secreta dos
obreiros edificadores.

Esta é em breve resumo a historia de David Ouguet, tirada de
uma velha chronica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaça
enquadernada em um volume junctamente com os traslados authenticos
das Côrtes de Lamego, do Juramento de Affonso Henriques sobre a
apparição de Christo, da Carta de feudo a Claraval, das Historias
de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papeis de igual veracidade
e importancia, que por pirraça ás nossas glorias provavelmente
os castelhanos nos levaram.

O lanço da crasta, fronteiro ao cuberto por onde ía elrei, estava
ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquelle magnifico
recincto, olhou para lá, e voltando-se para mestre Ouguet, disse:

"Parece-me que não vão tão aprimorados os lavores daquellas arcarias
como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?"

"Seguiu-se á risca nesta parte--tornou o architecto--o desenho
geral do edificio, feito por mestre Affonso Domingues; porque
seria grave erro destruir a harmonia desta peça: mas se vossa
mercê m'o permitte, antes de entrardes no capitulo tenho alguma
cousa que vos dizer ácerca do que ides presenciar."

"Falae desassombradamente:--respondeu elrei--que eu vos escuto."

"Tomei a ousadia--proseguiu mestre Ouguet--de seguir outro desenho
no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na
planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os
melhores mestres de pedraria. Era até impossivel que se fizesse
uma abobada tão achatada, como na primitiva traça se delineou:
eu, pelo menos, assim o julgo."

"E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer
essa mudança no que elle havia traçado?--interrompeu elrei.

"Por escusado o tive:--replicou David Ouguet.--Cégo, e por isso
inhabilitado para levar a cabo a edificação, teimaria que o seu
desenho se póde executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo
por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso.
Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre
Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que
havemos mister."

"Dizendo isto o architecto, mettêra ambas as mãos no cincto,
estendêra a perna direita excessivamente empertigada, e com a
fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os
circumstantes.

"Mestre Ouguet--acudiu elrei com aspecto severo--lembrae-vos
de que Affonso Domingues é o maior architecto portuguez. Não
entendo de vossas distincções de sciencia e de engenho: sei só
que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos
proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados
edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vós falaes com
pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso
cargo está hoje."

"Vossa mercê me perdoe:--tornou mestre Ouguet, adocicando o tom
orgulhoso com que falára.--Longe de mim menoscabar mestre Domingues:
ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razão do que
fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de
Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral
de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."

Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava
para a casa do capitulo: Fr. Lourenço Lamprea, como dono da casa,
correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao
umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos
e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa
tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do
umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho,
as mesuras do mui devoto padre prior.

Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas através
da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque
o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se
divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficára
á porta, mas Fr. Lourenço tinha entrado.

"Reverendo prior--disse elrei voltando-se para Fr. Lourenço--vim
tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração,
e ámanhan voltaremos aqui a horas de sol."

E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o
prior.

Mestre Ouguet entrou na casa do capitulo, quando já os ultimos
cavalleiros do sequito real íam saindo pelo lado opposto, caminho
da igreja. Com as mãos mettidas no cincto de couro preto que
trazia, e a passo mesurado, o architecto caminhou até o meio
daquella desconforme quadra. O som dos passos dos cavalleiros
tinha-se desvanecido; e mestre Ouguet dizia comsigo, olhando
para a porta por onde elles haviam passado:

"Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros,
senão um paiz sáfaro e inculto? Sois vós, homens brigosos, capazes
dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. Lá vão, lá
vão os frades celebrar um auto! Não serei eu que assista a elle;
eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis
selvagens, antes de tentardes representar mysterios fôra melhor
que mandasseis vir alguns irmãos da sociedade dos escrivães de
parochia de Londres[1], que vos ensinassem os verdadeiros momos,
ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."

Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da
nação que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais
na consciencia, da nação que lhe dava de beber, quando erguendo
casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se
arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu
a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabeça entre
as mãos, e gritando a espaços:

"Oh, malaventurado de mim!"

[1] Pelas Chronicas de Stow se vê que no principio do
seculo 15.° os mysterios eram representados em Londres pelos
escrivães de parochia, incorporados em sociedade por Henrique
3.°, em 1409.



O AUTO.


Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria
estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e
macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de
curiosos bestiães e lavores: era este o logar onde elrei devia
assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia
varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e
cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao
pé do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da
parede um devoto presepio[1], mui erguido do chão, e representando
serranias agrestes, ao sopé das quaes estava armada uma especie
de choça, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado
o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. José,
acompanhados de varios anjos, em acto de adoração. Diante da
cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso
de muitas táboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia
duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir
as personagens do auto.

Pages:
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14
Copyright (c) 2007. famouswriterz.com. All rights reserved.

Ay Mijo! Why Do You Want To Be An Engineer?
New Book, Endorsed By Society of Hispanic Professional Engineers, Profiles Successful Latino Engineers to Inspire Young Math, Science Students

Oklahoma City to be Site of NAHJ Region 5 Conference
A little more than a year after forming, the Oklahoma City Chapter of the National Association of Hispanic Journalists will be the host for the 2007 Region 5 Conference, March 30 - 31.

Support Teen Literature Day planned for April 19
The Young Adult Library Services Association (YALSA), the fastest growing division of the American Library Association (ALA), is celebrating its first ever Support Teen Literature Day on April 19, as part of ALA's National Library Week celebration.