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Lendas e Narrativas (Tomo I)

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Em quanto este dialogo se passava entre o heroe de Aljubarrota e
a sua poderosa alliada, Martim Vasques tinha posto tudo a ponto;
e dando as suas ordens da porta, as primeiras pancadas de martello,
batendo nos simples, resoaram pelo ambito da casa capitular.
Fez-se um grande silencio e todos os olhos se cravaram em Martim
Vasques.

Passada uma hora, aquelle montão de vigas, barrotes, taboas,
cambotas, cabrestantes, reguas e travessas tinha passado pela
crasta fóra em collos de homens: os presos tinham sido postos
em liberdade, com grande raiva da tia Brites ao vêr ir soltos
os bésteiros castelhanos; e só no centro da ampla quadra se via
uma pedra, sobre a qual, mudo e com a cabeça pendida para o peito,
estava assentado um velho.

A este velho rogava elrei, rogavam frades, rogava o povo, sem
todavia se atreverem a entrar, que saisse d'alli; mas elle não
lhes respondia nada. Desenganados, emfim, foram-se pouco a pouco
retirando da crasta, onde ao pôr do sol começou a bater o luar
de uma formosa noite de Maio.

Três dias se passaram assim. Mestre Affonso, assentado sobre a
pedra fria, nem se quer cedêra ás rogativas de Anna Margarida,
que, obrigada pela boa amizade que tinha a seu amo, se atrevêra
a cruzar os perigosos umbraes do capitulo, para vêr se o movia
a tomar alguma refeição: tudo recusou o cégo: a sua resoluçào
era inabalavel. Também a abobada estava firme, como se fôra de
bronze. No terceiro dia á tarde elrei, que tinha passado o tempo
em aparelhar-se para a guerra com actos de piedade, desceu á
crasta acompanhado de Fr. Lourenço e de outros frades, e chegando
á porta do capitulo viu Martim Vasques e Anna Margarida juncto á
pedra fria de Affonso Domingues, e este pallido e com as palpebras
cerradas encostado nos braços delles.

O mancebo e a velha choravam e soluçavam, sem dizerem palavra.

"Que temos de novo?--perguntou elrei, chegando á porta, e vendo
aquelles dous estafermos.--Completam-se ora os tres dias do
voto: ainda mestre Affonso teimará em estar aqui mais tempo?"

"Não senhor:--respondeu Martim Vasques, com palavras mal
articuladas:--não estará aqui mais tempo; porque seu corpo é herança
da terra; sua alma repousa com Deus."

"Morto!?"--bradaram a uma voz elrei e Fr. Lourenço; e correram
para o cadaver do architecto, olhando, todavia, primeiro para
a abobada com um gesto de receio.

"Nada temaes, senhores:--disse Martim Vasques--As ultimas palavras
do mestre foram estas: a abobada não cahiu ... a abobada não
cahirá!"

O architecto, já velho, não pôde resistir ao jejum absoluto a que
se condemnára. No momento em que, ajudado por Martim Vasques e
Anna Margarida, se quiz erguer cahiu moribundo nos braços delles,
e aquelle genio de luz mergulhou-se nas trévas do passado.

Elrei derramou algumas lagrymas sobre os restos do bom cavalleiro,
e Fr. Lourenço resou em voz baixa uma oração fervente pela alma
generosa, que até o ultimo arranco escrevêra sobre o marmore
o hymno dos valentes de Aljubarrota.

Na pedra, sobre a qual Mestre Affonso expirára, ordenou elrei se
tirasse, parecido quanto fosse possivel retratando-se um cadaver,
o vulto do honrado architecto, e que esta imagem fosse collocada
em um dos angulos da casa capitular, onde durante mais de quatro
seculos, como as sphynges monumentaes do Egypto, tem dado origem ás
mais desvairadas hypotheses e conjecturas. Á pobre Anna Margarida,
que ficava sem arrimo, doou D. João I, tambem, as casas em que
o mestre morava, fazendo-lhe, além disso, assignaladas mercês.

Mestre Ouguet, pelo que o cégo dissera a elrei ácerca da sua
capacidade para o substituir, e porque, emfim, era estrangeiro,
foi logo restituido ao cargo que occupára, e quando nos serões
do mosteiro alguem falava nos meritos de Affonso Domingues e na
sua desastrada morte, cortava o irlandez a conversação, dizendo
com um riso amarello:

"Olhem que foi forte perda!"

[1] A louça de Estremoz é antiquissima em o nosso paiz.
No tempo de Francisco I de França, mandavam-se buscar os pucaros
desta louça a Portugal, para beber a agua, que então, bem como
hoje, se tornava nelles excessivamente fria.

[2] Semanas.

[3] Martim Vasques foi o 3.º mestre das obras da Batalha
e Fernão d'Evora o 4.º--Veja-se a Memoria de D. Francisco de S.
Luiz no 10.º volume das da Academia.




FIM DO TOMO I.

* * * * *

INDICE.

O ALCAIDE DE SANTAREM

(590--961)


I

II

III

IV


ARRHAS POR FORO D'HESPANHA

(1371--2)


I A Arraya-miuda

II O Beguino

III Um Bulhão e uma Agulha de Alfaiate

IV Mil Dobras Pé-terra e trezentas Barbudas

V Mestre Bartholomeu Chambão

VI Uma Barregan Rainha

VII Juramento--Pagamento


O CASTELLO DE FARIA

(1373)


A ABOBADA

(1401)


I O Cégo

II Mestre Ouguet

III O Auto

IV Um Rei Cavalleiro

V O Voto Fatal






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