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Lendas e Narrativas (Tomo I)

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"Ora esse wasir cahiu no desagrado do Abdu-r-rahman, porque lhe
falava verdade, e rebatia as adulações dos seus lisongeiros.
Como o kalifa era generoso, o desagrado para com Mohammed
converteu-se em odio; e como era justo, o odio breve se traduziu
n'uma sentença de morte. A cabeça do ministro cahiu no cadafalso,
e a sua memoria passou á posteridade manchada pela calumnia.
Todavia o principe dos fiéis sabia bem que tinha assassinado um
innocente."

As feições transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma expressão
horrivel de angustia: quiz falar, mas apenas pôde fazer um signal
como que pedindo ao fakih que se calasse. Este proseguiu:

"Parece-me que o ouvir a leitura dos annaes do teu illustre reinado
te allivia e revoca á vida. Continuarei. Podesse eu prolongar
assim os teus dias, clementissimo kalifa!"

"Umeyya, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmão,
ficou como insensato. Á saudade ajunctava-se o horror do ferrete
posto sobre o nome, sempre immaculado, da sua familia. Dirigiu
as supplicas mais vehementes ao príncipe dos fiéis para que ao
menos rehabilitasse a memoria da pobre victima; mas soube-se
que ao ler a sua carta o virtuoso principe desatara a rir...!
Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que elle ria."

E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman, e soltou uma gargalhada.
O moribundo arrancou um gemido.

"Estás um pouco melhor ... não é verdade, invencivel kalifa?
Prosigamos. Umeyya quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro
que chegara de Korthoba partiu para Oviedo. O rei cristão de
Al-djuf não se riu da sua mensagem. Dahi o pouco Radmiro tinha
passado o Douro, e as fortalezas e cidades mussulmanas até o
Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do kaid
de Chantaryn. Com um numeroso esquadrão de amigos leaes este
ajudou a devastar o territorio mussulmano do Gharb até Merida.
Foi uma esplendida festa; um sacrifício digno da memoria de seu
irmão. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu
em torrentes."

"Pouco a pouco Umeyya começou a rellectir. Era Abdu-r-rahman quem
o offendêra. Para que tanto sangue vertido? A sua vingança fôra
a de uma besta-féra; fôra estúpida e van. Ao kalifa, quasi sempre
victorioso, que importavam os que por elle pereciam? O kaid de
Chantaryn mudou então de systema. A guerra publica e inutil
converteu-a em perseguição occulta e efficaz: á forca oppoz a
destreza. Fingiu abandonar os seus alliados e sumiu-se nas trevas.
Esqueceram-se delle. Quando tornou a apparecer á luz do dia ninguém
o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda
de esparto; os cabellos cahiam-lhe desordenados sobre os hombros
e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lh'as tisnado o
sol dos desertos. Corrêra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por
toda a parte os thesouros da sua família e os próprios thesouros
até o ultimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos
fiéis. Depois veio viver nos cemiterios de Korthoba, juncto dos
porticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos
em que podesse offerecer-lhe a amargura, as angustias em troca
do sangue de Mohammed-Ibn-Isbak. O guerreiro chamou-se desde
esse tempo Al-gafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o sancto
fakih..."

Como sacudido por uma corrente electrica, Abdu-r-rahman dera
um pulo no almatrah ao ouvir estas ultimas palavras, e ficára
sentado, hirto e com as mãos estendidas. Queria bradar, mas o
sangue escumou-lhe nos labios, e só pôde murmurar já quasi
inintelligivelmente:

"Maldicto!"

"Boa cousa é a historia,--proseguiu o seu algoz sem mudar de
postura--quando nos recordâmos do nosso passado, e não achâmos lá
para colher um único espinho de remorso! É o teu caso, virtuoso
principe! Mas sigamos ávante. O sancto fakih Al-muulin foi quem
instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu
Abdallah; quem delatou a conspiração; quem se apoderou do teu
animo credulo; quem te puniu com os terrores de tantos annos;
quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar juncto ás
portas do inferno que se foste o assassino de seu irmão, tambem
o foste do proprio filho; para te dizer que se cobriste o seu
nome de ignominia, tambem ao teu se ajunctará o de tyranno. Ouve
pela ultima vez o rir que responde ao teu riso de ha dez annos.
Ouve, ouve, kalifa!"

Al-gafir, ou antes Umeyya, levantára gradualmente a voz, e estendia
os punhos cerrados para Abdu-r-rahman, cravando nelle os olhos
reluzentes e desvairados. O velho monarcha tinha os seus abertos,
e parecia tambem olhar para elle, mas perfeitamente tranquillo.
A quem houvesse presenciado aquella tremenda scena não seria
facil dizer qual dos dous tinha mais horrendo gesto.

Era um cadaver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante
do cadaver era a expressão mais energica da atrocidade de coração
vingativo.

"Oh, se não ouviria as minhas derradeiras palavras!..."--murmurou
o fakih depois de ter conhecido que o kalifa estava morto. Poz-se
depois a scismar largo espaço: as lagrymas rolavam-lhe a quatro
e quatro pelas faces rugosas.--"Um anno mais de tormentos, e
ficava satisfeito!--exclamou por fim.--Podéra eu dilatar-lhe a
vida!"

Dirigiu-se então para a porta, abriu-a de par em par e bateu as
palmas. Os eunuchos, as mulheres, e o proprio Al-hakem, inquieto
pelo estado de seu pae, precipitaram-se no aposento. Al-muulin
parou no limiar da porta, voltou-se para traz, e com voz lenta
e grave disse:

"Orae ao propheta pelo repouso do kalifa."

Houve quem o visse saír, quem á luz baça do crepusculo o visse
tomar para o lado de Cordova com passos vagarosos, apesar das
lufadas violentas do oeste, que annunciavam uma noite procellosa.
Mas nem em Cordova, nem em Azzahrat, ninguém mais o viu desde
aquelle dia.





ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2)




A Arraya-Miuda


O sino das ave-marias, ou da oração, tinha dado na torre da sé
a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de
casas, que apinhadas á roda do castello, e como enfeixadas e
comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa,
pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acolá as
luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam
como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a
hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos,
a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa
e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da
capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho era o
completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o
paço d'apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao
mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de
passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido
agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse
mar revolto não tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia
que vem após a procella.

E assim era, com effeito, como o leitor poderá averiguar por
seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado,
quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho
Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da sé, na rua
que sobe para os paços da alcaçova, sete ou oito portas acima
dos paços do concelho.

A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal
ainda impubere, como pagem d'armas do famoso almirante Lançarote
Peçanha, e que havia annos abandonára o serviço maritimo para se
dar á mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa,
não só pelo luxo do seu adereço, e bondade dos liquidos encerrados
nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um
aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e
muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo
aos tavolageiros de profissão, para perderem ou ganharem ahi,
em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de
ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario
dos seus antecessores e successores, julgára ser mais rico e
poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que
roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal,
segundo o costume de todos os reis no começo de seu reinar.

Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do
corregedor da côrte e de todos os saiões, algozes e mais familia
da nobre raça dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante
estabelecimento industrial. O elixir que elle empregára para
produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse;
mas é certo que não se perdeu com a alchimia, porque se vê que
elle existe em mãos abençoadas, produzindo ainda hoje repetidos
milagres em tudo analogos a este.

Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida
vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhança desta porta
da antiga cêrca, onde os ruídos vagos e incertos, que sussurravam
pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como
em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se,
estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante
fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que
trasbordava até o breve terreirinho da sé, falando todos a um
tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que ás
vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e
blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava
aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente
a colera popular.

Já no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje,
colerico. Então coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice.

Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa
de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos
lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras
ameaçadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes
individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d'entre o
vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se
revelava nos seus coromens de panno d'Arrás, nos cinctos escuros,
nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes
e esganiçadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro
e insolencia daquellas desgraçadas. Em cima dos bofetes viam-se
picheis e taças vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados,
que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que ás vezes
sobresaíam através do ruído daquelle respeitavel congresso, não
provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos
vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d'uma
boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo
companheiro de gloria de micer Lançarote estava visivelmente
prostituida e livelada com as mais immundas e vis baiúcas de
Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e
pela primeira vez o vicio e a corrupção tinham transposto aquelles
umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos
do povo não têem cabida os adornos de ouropel. É a unica differença
moral que ha entre elle e as classes superiores, que se crêem
melhores, porque no gymnasio da civilisação aprendem desde a
infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita.

O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor
aquelle turbilhão de planetas; o centro moral, á roda do qual
giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras
de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados
e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa.
Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento,
e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que
o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora
sobresaía no ruído, e só se confundia com alguma jura blasphema
que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as
modulações das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e
abafado, de certo modo semelhantes a clarão affogueado que sulcasse
rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea
de alguma igreja do sexto seculo.

De repente dous cavalleiros, cuja graduação se conhecia pelos
barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças
de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados
de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo,
que lhes alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e
trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo
que nenhum dos circumstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes
desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o
indagar; mas uma identica reflexão atou todas as mãos. Ao longo
da côxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado
direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote
deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para
virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que
entre a turba se achassem alguns homens d'armas, principalmente
bésteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos,
portanto, o pôr-lhes o visto popular.

Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao
homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabeça
fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a
turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de
respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados
ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com
as cabeças apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como
alheios ao sussurro que começava a alevantar-se de novo á roda
delles.

Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez
voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello,
elle deu signal com a mão de que pretendia falar.

"Ouvide! Ouvide!"--bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella
multidão desordenada.

Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas
mãos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das
orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador
principiou:

"Arraya-miuda[1]! tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos
bem falantes e avisados para propôr vossos embargos e razoados
contra este maldicto e descommunal casamento d'el-rei com a mulher
de João Lourenço da Cunha?"

"Todos á uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques:
--respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios
d'uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de
conta entre os populares.--Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais
discreto e aposto para taes autos que vós? Quem com mais urgentes
razões proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d'elrei, do
que vós o fizestes hoje na mostra que démos ao paço esta tarde?"

"Alcacer, alcacer! por nosso capitão Fernão Vasques:--bradou unisona
a chusma.

"Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambão!--replicou Fernão
Vasques, socegado o tumulto.--Pelo razoado de hoje terei em paga
a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do ámanhan terei
as mãos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e
enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vós por averiguado,
mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da
corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em
costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais
rijo no gasnate de um christão que a vossa enchó n'uma aduela
de pipa?"

"Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha
da bésta, me não estourar:--exclamou um bésteiro de conto,
cambaleando e erguendo-se debaixo d'um bofete, para onde o haviam
derribado certas perturbações d'enthusiasmo politico.

"Amendico Vobis!--gritou um beguino, cujas faces vermelhas e
voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com
as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta.

"Olé, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres
vir nesse bordo por nossa esteira:--bradou um petintal d'Alfama,
que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores,
barqueiros e galeotes daquelle bairro, então quasi exclusivamente
povoado de semelhante gente.

"Digo por linguagem"--acudiu o beguino--"que ninguém como mestre
Fernão Vasques é homem de cordura e sages para ámanhan falar a
elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles,
do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil
em ousadia para fugir ás galés de Castella e doestar os bons
servos da igreja."

Era allusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu
á mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo
modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de
dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou.

Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a má
vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascêra da
emulação; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno
de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um
delles se assentava.

Se, pois, aquella multidão não estivesse persuadida da superioridade
intellectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dous
oraculos lhe não teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia,
nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento
de odio que nascêra n'um dia, e n'um dia lançára profundas raizes
nos corações de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao
mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam
juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre
este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas,
erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares.

Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando
um pouco mais alto.

O amor cego d'el-rei D. Fernando pela mulher de João Lourenço
da Cunha, D. Leonor Telles, havia muito que era o pasto saboroso
da maledicencia do povo, dos calculos dos politicos e dos enredos
dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principaes
cavalleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e
corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho prompto
e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse
favoravel. Quanto a elrei, a paixão violenta em que este ardia
lhe assegurava a ella o completo dominio no seu coração. Mas
as miras daquella mulher, cuja alma era um abysmo de cubiça,
de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do
que na triste vangloria de vêr a seus pés um rei bom, generoso
e gentil. Através do amor de D. Fernando ella só enxergava o
refulgir da corôa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de
rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas
as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas caricias,
a idéa primitiva de todas as suas idéas. Leonor Telles não amava
elrei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor della;
e este principe, que seria um dos melhores monarchas portuguezes,
e que a muitos respeitos o foi, deixou na historia, quasi sempre
superficial, um nome deshonrado, por ter escripto esse nome na
horrivel chronica da nossa Lucrecia Borgia. Uma difficuldade,
quasi insuperavel para outra que não fosse D. Leonor, se interpunha
entre ella e seus ambiciosos designios. Era casada! Um processo
de divorcio por parentesco, julgado por juizes affectos a D.
Leonor, ou que sabiam até onde chegava a sua vingança, a livrou
desse tropeço. Seu marido, João Lourenço da Cunha, atterrado,
fugiu para Castella, e D. Fernando, casado, segundo se dizia,
a occultas com ella, muito antes da epocha em que começa esta
narrativa, viu emfim satisfeito o seu amor insensato.

Aquelles d'entre os nobres, que ainda conservavam puras as tradições
severas dos antigos tempos, indignavam-se pelo opprobrio da corôa e
pelas consequencias que devia ter o repudio da infante de Castella,
cujo casamento com elrei, ajustado e jurado, este desfizera com
a leveza que se nota como defeito principal no caracter de D.
Fernando. Entre os que altamente desapprovavam taes amores, o
infante D. Diniz, o mais moço dos filhos de D. Ignez de Castro,
e o velho Diogo Lopes Pacheco[2] eram, segundo parece, os cabeças
da parcialidade contraria a D. Leonor; aquelle pela altivez de
seu animo; este por gratidão a D. Henrique de Castella, em quem
achára amparo e abrigo no tempo dos seus infortunios, e que o
salvára da triste sorte de Alvaro Gonçalves Coutinho e de Pedro
Coelho, seus companheiros no patriotico crime da morte de D.
Ignez.

O casamento d'elrei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor
vago, uma suspeita. Os nobres, porém, que o desapprovavam souberam
transmittir ao povo os proprios temores; e a agitacão dos animos
crescia á medida que os amores d'elrei se tornavam mais publicos.
D. Fernando tinha já revelado aos seus conselheiros a resolução
que tomára, e estes, posto que a principio lhe falassem com a
liberdade que então se usava nos paços dos reis, vendo suas
diligencias baldadas, contentaram-se de condemnar com o silencio
essa malaventurada resolução. O povo, porém, não se contentou
com isso.

Conforme as idéas desse tempo, além das considerações politicas,
semelhante consorcio era monstruso aos olhos do vulgo, por um motivo
de religião, o qual ainda de maior peso seria hoje, e sê-lo-ha em
todos os tempos em que a moral social fòr mais respeitada do que
o era naquella epocha. Tal consorcio constituia um verdadeiro
adulterio, e os filhos que delle procedessem mal poderiam ser
considerados como infantes de Portugal, e por consequencia como
fiadores da successão da corôa.

A irritação dos animos, assoprada pela nobreza, tínha chegado
ao seu auge, e a colera popular rebentára violenta na tarde que
precedeu a noite em que começa esta historia.

Tres mil homens se tinham dirigido tumultuariamente ás portas do
paço, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e estrepito
que fazia aquella multidão desordenada assustou elrei, que por
um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que
estavam assim reunidos. Então o alfaiate Fernão Vasques, capitão
e procurador por elles, como lhe chama Fernão Lopes, affeiou
em termos violentos as intenções d'elrei, liberalisando a D.
Leonor os titulos de má mulher e feiticeira, e asseverando que o
povo nunca havia de consentir em seu casamento adultero. A arenga
rude e vehemente do alfaiate orador, acompanhada e victoriada de
gritas insolentes e ameaçadoras do tropel que o seguia, moveu
elrei a responder com agradecimentos ás injurias, e a affirmar
que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, promettendo
ir na manhan seguinte aclarar com elles este negocio no mosteiro
de S. Domingos, para onde os emprasava. Com taes promessas pouco
a pouco se aquietou o motim, e ao cahir da noite o terreiro d'apar
S. Martinho estava em completo silencio. Como se, na solidão,
elrei quizesse consultar comsigo o que havia de dizer ao seu bom
e fiel povo de Lisboa, as vidraças córadas das esguias janellas
dos paços reaes, que vertiam quasi todas as noites o ruido e o
esplendor dos saráus, cerradas nesta hora e caladas como sepulchro,
contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrepito das ruas,
com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com
o perpassar contínuo dos magotes e pinhas de gente que se
encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacillavam, ficavam
immoveis, agglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para
se agglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem
motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as
vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como ellas. Feroz na
sua colera razoada, ferocissimo no seu rir insensato, o vulgo
passava, rei de um dia. Esse ruído, essa vertigem que o agitava
era o seu baile, a sua festa de triumpho: e as estrellas de serena
noite de agosto, semelhantes a lampadas pendentes de abobada
profunda, alumiavam o saráu popular, as salas do seu folguedo,
a praça e a encruzilhada. Era a um tempo truanesco e terrivel.

Na taberna de micer Folco (onde deixámos as personagens principaes
desta historia, para inserir, talvez fóra de logar, o prologo ou
introducção a ella) as acclamaçôes freneticas dos populares tinham
tornado indubitavel que o propoedor para o ajunctamento do dia
seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernão Vasques. Fr.
Roy era de todos os circumstantes o que mais parecia ter a peito
esta escolha, e o petintal Ayras Gil ajudava-o poderosamente com
o ruido dos amplos pulmões dos galeotes d'Alfama, contrabidos
como em voga arrancada, victoriando o seu capitão. O alfaiate
não pôde resistir, nem porventura tinha vontade d'isso, a tanta
popularidade, e em pé sobre o escabello, com a cabeça levemente
inclinada para o peito, n'uma postura entre de resignação e de
bemaventurança, tremulava-lhe nos labios semi-abertos um sorriso
que revelava uma parte dos mysterios do seu coração. Emfim, quando
a grita começou a asserenar, Fernão Vasques ergueu a cabeça, e
com aspecto grave deu signal de que pretendia falar ainda.

Fez-se de novo silencio.

"Seja, pois, como quereis:--disse o alfaiate--mas vede o grão risco
a que me ponho por vós outros. Falarei eu a elrei com liberdade
portuguesa: proporei vosso aggravo e a deshonra e feio peccado
de sua real senhoria, mas é necessario que vós todos quantos
ahi sois estejaes de alcateia e ao romper d'alva no alpendre
de S. Domingos. Dizem que a adultera é mulher de grande coração
e ousados pensamentos; em Lisboa estão muitos cavalleiros seus
parentes e parciaes. Bésteiros deste concelho, que não vos esqueçam
em casa vossas béstas e aljavas! Pioada de Lisboa, levae vossas
ascumas! Os trons e engenhos do castello--accrescentou o alfaiate
em voz mais baixa e hesitando--não vos apoquentarão, ainda que
elrei o quizesse, porque o alcaidemór João Lourenço Bubal não
é dos affeiçoados a D. Leonor Telles. Sancta Maria e Sanctiago
sejam comvosco! Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! A repousar,
amigos!"

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