Lendas e Narrativas (Tomo I)
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Alexandre Herculano >> Lendas e Narrativas (Tomo I)
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Por meio deste vasto quadro de assolação rompia uma numerosa
companhia de cavalleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzellas
e pagens, brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Antão
para S. Domingos, e tomava pela corredoura para a porta do ferro.
A formosura e o luxo das mulheres, as figuras athleticas e os
rostos varonis dos cavalleiros, o brunido das armas, o loução
dos trajos, o rico dos arreios, tudo emfim dava clara mostra
de que naquella cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal.
Os risos das damas, os dictos galantes o agudos dos fidalgos, o
rinchar alegre dos corcéis briosos e dos delicados palafrens,
as doudices dos donzeis, que ora correndo á rédea solta, ora
soffreando os cavallos ao perpassar pelas mulas pacificas dos
cortezãos letrados, os faziam vacillar e debruçar sobre os arções,
o bater das asas dos nebris e girifaltes empoleirados nos punhos
dos falcoeiros, o latir dos galgos e allãos, que atrellados
forcejavam por se atirarem acima daquelles centenares de habitações
derrocadas, d'onde saía de vez em quando uma exhalacâo de carniça:
este rir, este folgar, este ruído do contentamento, este matiz
de reflexos metallicos, de côres variegadas, passando como um
turbilhão através daquelle silencio sepulchral, parecia rasgar
o veu de tristeza que cobria a vasta área da cidade destruida,
e revoca-la a uma nova existencia.
Mas o povo, apesar d'isso, continuava a estar triste.
A cavalgada chegou ao terreiro da sé. Um engenho de arremessar
pedras estava assentado no meio delle, e os grossos madeiros de
que era construído viam-se ainda manchados de rastos de sangue.
Uma dama, que vinha na frente da comitiva, parou: um cavalleiro
de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou
tambem. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras
ao cavalleiro, e depois desatou a rir.
Era ella a mui nobre e virtuosa minha D. Leonor: elle o mui
excellente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.
D. Leonor Telles tinha razão para rir.
Durante o cêrco de Lisboa uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhára
de que vários moradores da cidade estavam preitejados com elrei
de Castella para lhe abrirem uma das portas. Dava força a taes
suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco
e D. Diniz, que com elle se haviam ajunctado na sua entrada em
Portugal, e as desconfianças recahiam naturalmente sobre aquelles
que dous annos antes tinham seguido o partido contrario a D.
Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Affonso IV eram
cabeças. Assim a popularidade dos parciaes de D. Diniz tinha
diminuido consideravelmente, porque o povo, em vez de attribuir
a sua ruina ás causas remotas, ás paixões insensatas de D. Leonor
e á imprudencia d'elrei, só nas suggestòes de Diogo Lopes e do
infante via agora a origem de todos os males presentes, e o odio
que contra os dous havia concebido se estendêra a todos os que
cria serem-lhes affeiçoados.
Apenas, portanto, se divulgou a noticia da intentada traição, o
povo furioso correu ás moradas daquelles, que, como fica dicto,
lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de cannibaes, festa
de vulgacho em qualquer tempo e logar que elle reine. Aquelles
que não poderam provar de modo innegavel a sua innocencia, foram
mettidos aos mais crueis tormentos, onde nenhum se confessou
culpado. Um desgraçado, contra o qual eram mais vehementes as
desconfianças, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaços:
"outro--diz o chronísta[1]--tomarom e pozerom-no na fumda d'huum
engenho, que estava armado ante a porta da see; e quando desfechou
lançono em cima dessa egreja antre duas torres dos sinos que
hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e
pozeromno na fumda do engenho, e deitouho contra o mar, omde
elles desejavom, e assi acabou sua vida."
Era por isso que D. Leonor olhára para o engenho, e se ríra. O
próprio povo tinha pagado uma parte das arrhas do seu casamento.
A noite descêra entretanto. A cavalgada parou no terreiro de
S. Martinho, e á luz de muitas tochas parte daquella multidão
escoou-se pouco a pouco por diversas ruas, emquanto outra parte
subia á sala principal, ou se derramava pelos aposentos dos paços,
cujo silencio de quasi dous annos, depois du fuga d'elrei com
D. Leonor Telles, era a primera vez interrompido pelo ruido de
uma côrte numerosa, mas bem differente da antiga. A rainha havia
quasi exclusivamente chamado a ella os seus parentes, ou aquelles
fidalgos que lhe tinham dado provas não equivocas de sincero
affeiçcão e substituíra á severidade antiga do paço todo brilho
de um luxo insensato, e o que mais era, a dissoluçao dos costumes,
que quasi sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplendida,
como o devia ser nesta côrte voluptuaria, apenas ficára na camara
real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcellos D. Joâo, D.
Gonçalo Telles, irmão de D. Leonor e um donzel da rainha, filho
bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Alvaro Gonçalves
Pereira, e que ella mais que nenhum estimava. Estas personagens
achavam-se reunidas no mesmo aposento onde dous annos antes o
beguino Fr. Roy viera revelar á então amante de D. Fernando os
intentos de seus inimigos. Era deste aposento que ella saíra
fugitiva e amaldicçoada do povo. Mas era ahi também que ella
vinha depois de tantos sustos, de tantas difficuldades vencidas,
de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triumphadora,
segura já na fronte a corôa real. Tudo estava do mesmo modo,
salvo as personagens, que em parte eram diversas e em diversa
situação.
Elrei, habitualmente alegre, se assentára triste na cadeira de
espaldas, unico movel do aposento, e encostára a cabeça sobre
o punho cerrado: D. Leonor, posto que naturalmente loquaz[2],
assentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se tambem
em silencio: em pé, um pouco atraz da cadeira d'elrei, o donzel
querido de D. Leonor, com os olhos fitos nella, esperava attento
as determinações de sua senhora: ao longo da sala o conde de
Barcellos e D. Gonçalo Telles passeavam lentamente, conversando
em voz submissa e pausada.
Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principaes
tinha bem differentes motivos.
A imagem da sua capital destruida havia-se embebido na alma d'elrei
como um remorso cruel. Pelas suggestões de seu tio adoptivo
consentíra que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta
Lisboa. Elle, neto de Affonso IV, rejeitára os soccorros de seus
valorosos vassallos, que de toda a parte haviam corrido, lança
em punho, para combaterem debaixo da signa real, ao esvoaçar
dos pendões inimigos: elle, cavalleiro, fôra vil instrumento
de vingança covarde: elle, rei de Portugal, fôra o destruidor
do seu povo; elle, portuguez, recebêra o nome de fraco de um
castelhano, sem que ousasse desmentir a affronta[3]! Estas idéas,
que o tinham assaltado ao atravessar as ruinas dos arrabaldes,
tomavam maior vulto e força na solidão e no silencio. O pobre
monarcha, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha
sobeja razão de estar triste. A lua, que começava a subir, dava
de chapa, através da janella oriental do aposento, no rosto de D.
Fernando, como dous annos antes, quasi a essa hora, lhe allumiára
tambem as faces demudadas de afflicção. Este logar, esta luz, e
esta hora eram para elle fataes!
Nesse momento passos mais rapidos e mais pesados que os dos dous
fidalgos começaram a soar na sala contigua: quem quer que era
passeava também.
Dos olhos de D. Fernando saíam dous tenues reflexos; eram os raios
da lua que se espelhavam em duas lagrymas.
A raínha, alevantando-se então, disse ao donzel:
"Nunalvares Pereira, vêde quem está nessa sala."
Nunalvares abriu a porta, e alongando a cabeça voltou-se
immediatamente, e disse:
"O corregedor da côrte."
Os dous fidalgos pararam na extremidade do aposento, calaram-se,
e conservaram-se immoveis.
A rainha fez signal com a mão a Nunalvares para que esperasse:
o donzel ficou á porta sem pestanejar.
D. Leonor encaminhou-se então para elrei, que, embebido no seu
profundo scismar, não víra nem ouvíra o que se fazia ou dizia.
Curvando-se, e firmando o cotovello no braço da cadeira d'elrei
encostou a cabeça sobre o hombro delle, com a face unida á sua.
"Que tens tu, Fernando?--perguntou ella com essa inflexão de
voz meiga, que só sabem labios de esposa que muito ama, mas com
que tambem soubera atinar esta mulher sublime de hypocrisia.
"Nada! oh ... nada!"--respondeu elrei, lançando-lhe o braço ao
redor do pescoço, e apertando a face incendiada aquelle rosto
de anjo, que dissimulava um coração de demonio.
Os dous tenues reflexos da lua tinham esmorecido nos olhos de
D. Fernando: o halito de Leonor Telles queimára as lagrymas da
compaixão e do remorso.
"Enganas-me, ou enganas-te a ti proprio, Fernando!--replicou
a rainha.--Tu és infeliz, e eu sei porque o és. Aborreces já a
pobre Leonor Telles."
O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir
um coração de marmore.
"Enlouqueceste, Leonor?--exclamou el-rei.--Aborrecer-te? Sem
ti este mundo fôra para mim um ermo, a corôa martyrio, a vida
maldicção de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores,
no leito da morte amar-te-hei ainda. Gloria, riqueza, poderio,
tudo te sacrifiquei: não me pêsa. Mil vezes que tu o queiras
t'o sacrificarei de novo."
"Oh, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes:
fosse metade do meu!"
"Busca, inventa, aponta-me algum modo de te provar o que digo,
e verás se as minhas palavras são sinceras!"
"Ha um, rei de Portugal!"--replicou Leonor Telles, em cujos olhos
scintillava o contentamento.
Dizendo isto ella se affastára d'elrei. O seu aspecto tomou
subitamente a expressão grave e severa de uma rainha. A um gesto
que fez, Nunalvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da côrte
entrou. Trazia na mão um pergaminho aberto. Chegou ao pé de Leonor
Telles, ajoelhou e entregou-lh'o.
A rainha pegou nelle, e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe
uma das tochas que estavam nos angulos do aposento, e collocou-se
á esquerda da cadeira de D. Fernando.
"A prova do que dissestes, rei de Portugal, está em estampardes
no fim desse pergaminho o vosso sello de puridade.[4]"
D. Fernando recebeu o pergaminho e começou a ler: a cada uma das
extensas linhas que o obrigavam a descrever um semi-circulo com
o raio visual, o tremor das suas mãos se tornava mais violento,
as contracções do seu rosto mais profundas. Antes de acabar de
ler atirou o pergaminho ao chão, e com voz terrível exclamou,
cravando os olhos reluzentes em Leonor Telles:
"Mulher, que me pedes tu?"
"Justiça, e as minhas arrhas."
Era a primeira vez que elrei ousava resistir á vontade de Leonor
Telles. Ella ainda não o cria. Habituada a ser obedecida pelo
pobre monarcha, estas ultimas palavras foram proferidas com a
insolencia de uma resolução incontrastavel.
"Justiça? Contra quem a pedes? Contra cadaveres e moribundos.
As tuas arrhas? Tiveste em dote as mais formosas villas de meus
senhorios: tiveste o que mais desejavas, as arrhas de sangue
e ruinas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor
d'inimigos: para te contentar, fui vil e fraco: para te contentar,
dos patibulos já têm pendido sobejos cadaveres[5]. E ainda não
satisfeita, pretendes que antes de dormir uma unica noite na
minha capital assolada, confirme uma sentença de morte? Leonor!
tu eras digna de ser filha de meu implacavel pae!"
D. Leonor repellíra o olhar, entre colerico e timido, de Fernando,
que mal acreditava a própria audacia, com um olhar em que se
misturava a indignação e o despreso. Ella ouvira as suas palavras
sem mudar de aspecto, mas apenas elrei acabou, encaminhou-se para
a janella d'onde batia o luar, e estendeu a mão para o céu:
"Ha dous annos, senhor rei, que neste aposento, a estas mesmas
horas, um cavalleiro jurava a uma dama, de quem pretendia quanto
mulher póde ceder a desejos de homem, que a amaria sempre; jurava-o
pelo céu, pelos ossos de seus avós, pela sua fé de cavalleiro--e
o cavalleiro mentiu. As bôcas de homens vis vomitavam contra essa
mulher, e a essa mesma hora, os nomes de adultera, de barregan,
de prostituta, e pediam a sua morte. O cavalleiro sabia que taes
affrontas escrevem-se para sempre na fronte de quem as recebe,
se o sangue de quem as proferiu não as lava um dia. O cavalleiro
ofereceu a sua alma aos demonios se não as lavasse com sangue--e
esse cavalleiro blasphemou e mentiu. Senhor rei, diante do céu que
elle invocou, perto dos ossos de seus avós, pelos quaes jurou,
á luz da lua que o allumiava, dir-vos-hei: aquelle cavalleiro
foi perjuro, blasphemo, desleal e covarde, e eu a sua victima. É
contra elle que ora vos peço justiça. Rei do Portugal, justiça!"
Esta ultima palavra restrugiu horrivelmente pelo aposento. Elrei,
que durante o discurso de D. Leonor se erguêra pouco a pouco,
fascinado pelo seu gesto diabolico e pelo seu olhar fulminante,
cahiu outra vez, arquejando, sobre a cadeira. O desgraçado cobriu
a cara com ambas as mãos, e depois de um momento de silencio
murmurou:
"Mas como punir aquelles que talvez são cadaveres? A guerra e
a furia popular os puniram!"
D. Leonor trinmphára.
"Nem todos:--proseguíu a astuta e sanguinária panthera, accommettendo
o ultimo entrincheiramento, em que D. Fernando já debalde procurava
defender-se.--Os seus mais vis inimigos ainda respiram, e porventura,
ainda sonham vingança. Corregedor da côrte, lêde os nomes escriptos
em vossa sentença."
O corregedor da côrte levantou o pergaminho, affastando-o dos
olhos, e interpondo a mão aberta entre estes e a tocha que Nunalvares
segurava: tossiu duas vezes, inclinou para traz a cabeça, e com
o tom cheio e solemne de um mestre em degredos, leu:
"Item: Fernào Vaasques, peom, alfayate, cabeça e propoedor dos
ssusodictos rreveis."--Aqui abriu o peitilho da garnacha, tirou
a sua ementa particular, e leu a seguinte cota:
"Vivo; muy malferido dhuùa ffrechada com hera[6] no ffecto
do meirinho-moor, quando hos da cidade llevarom os castellãos
de vencida atá mêa rrua nova."
Lida esta observação, o corregedor continuou a ler successivamente
os nomes dos réus e as respectivas cotas.
"Item: Stevom Martins Bexigosso, mercador, pcom, capitão dhuù
corpo dos ssusodictos rreveis."--Dizia a ementa:--"Morto de ssua
door naturall.
"Item: Bertolameu Martijs, ourivez, peom, dizidor de pallavras
de desacatamento contra ssua rreal ssenhoria, e de grão ssamdice
e desavergonhamento."--Dizia a ementa:--"Morto dhuùa pedrada
dhuù emgenho dos imiguos."
"Item: Joham Lobeira, escudeiro, homem darmas, acostado do allcayde
moor que ffoy do caslello desta lyal cidade, capitão dos beesteiros
que fforom a Ssam domingos."--Dizia a cota:--"Foy cativo dhos
castellãos: dado em rrendiçom, e a boõrrequado na pryssom Dalcaçova."
"Item: Bertolameu Chambão, peom, tanoeiro, cabeça da beestaria
do concelho, deputado, pera ffazer vilto e affronta a ssua rreal
ssenhoria ha muy excellente e muy vertuosa de gramdes vertudes,
rrainha dona llyanor."--Resava a ementa:--"Morto dhuùa lamçada
aa porta dho fferro."
"Item: Ayras Gil, petintal, capitão dos rreveis, gualiotes, arraizes,
e pesquadores Dalfama."--Dizia a cota:--"Ffogido com os castellaõs."
"Item: Fr. Roy, dalcunha Zambrana, biguino, ffolliom, jograll de
sseu officio, bevedo, assoalhador de palavras e dictos devedados,
e scuita dhos reveis."--Notava a ementa:--"Enssandeçeu na pryssom
ao lleer da ssemtemça."
Pobre Fr. Roy! Vendo-se condemnado á morte, desesperado, revelára
o que tinha sido na revolta--um espia de Leonor Telles. A cota da
ementa fôra tudo o que tirára das suas revelações: o corregedor,
homem agudo como o melhor mestre em leis ou degredos, deduzira
das suas palavras que o beguino endoudecêra. Trocava as idéas.
Tinha sido espia, mas dos revoltosos.
Alevantado o cêrco da Lisboa, o corregedor da côrte fôra o primeiro
presente que a nova rainha enviára á cidade. Áquelle perspicaz
e diligente magistrado poucos dias haviam bastado para preparar
um sarau digno della, uma sentença de morte. A prova da sua
perspicacia e diligencia estava em ter já no caminho da forca os
desgraçados, cuja sentença vinha trazer confirmação real. N'uma
execução nocturna não havia a receiar tumultos populares, e a
brevidade que a rainha lhe recommendára neste negocio, lhe fazia
crer que não seria desagradavel a sua real senhoria a immediata
execução dos réus.
Quando acabou a leitura, elrei tirou da bolça que trazia ao cindo
o sêllo de camafeu, e sem dizer palavra entregou-o ao corregedor.
Este pegou na tocha de Nunalvares, deixou cahir alguns pingos de
cera no fundo do pergaminho, assentou-lhe em cima um fragmento
de papel que tirára da ementa, e cravou neste o sêllo. As armas
d'elrei ficaram ahi estampadas. O corregedor fizera isto com a
promptidào e aceio com que o mais habil algoz enforcaria o seu
proximo.
Depois o honesto magistrado entregou o sêllo a elrei, cujo tremor
nervoso se renovára durante a fatal ceremonia. Ao pegar-lhe, o
pobre monarcha deixou-o cahir no chão. O sêllo foi rolando e
parou aos pés de D. Leonor Telles. Ella empallideceu. Porquê?
Talvez se lhe figurou uma cabeça humana, que rolava diante delia.
O corregedor fez uma profunda venia, e perguntou em voz sumida
á rainha:
"Quando, senhora?"
No mesmo tom D. Leonor respondeu:
"Já."
O destro e activo corregedor tinha dado no vinte. O já da seria
mais já do que ella propria pensava.
O corregedor saíu.
A um aceno de D. Leonor, o donzel metteu a tocha no annel de
ferro embebido na parede, d'onde a tinha tirado, e encaminhou-se
para juncto da porta, onde ficou com os braços cruzados, olhos
no chão, e immovel como uma estatua. Desde este dia o formoso
donzel odiou do fundo da alma a sua mui nobre senhora, aquella
que lhe cingira a espada. O generoso Nunalvares conhecêra que
debaixo desse rosto suave se escondia um instincto de besta-fera.
Os dous fidalgos continuaram a passeiar de um para outro lado,
conversando em voz baixa e como alheios á scena que alli se passava.
Elrei tomára a primeira postura em que estava, com o cotovelo
firmado no braço da cadeira, e a cabeça encostada no punho; mas os
seus olhos, revolvendo-se-lhe nas orbitas, incertos e espantados,
exprimiam a dolorosa alienação daquella alma timida, atormentada
por mil affectos oppostos.
Ouvia-se apenas o cicío dos dous que conversavam. E por largo
espaço aquetle murmurio, e o respirar alto e convulso de D. Fernando
foram o unico ruído que interrompeu o silencio do vasto aposento.
Elrei, com a mão esquerda pendente sobre os joelhos, deixava-se
ir ao som das idéas tenebrosas que lhe offuscavam o espirito,
e que protrahidas o levariam bem proximo das raias de completa
loucura. A imagem de Leonor Telles apparecia-lhe como composto
monstruoso de vulto d'anjo e de olhar de demonio. Um amor infinito
arrastava-o para essa imagem; o horror affastava-o della. Via-a
como um simulachro das virgens, que, na infancia, imaginava ao
ouvir ler ao bom de seu aio Ayras Gomes as lendas das martyres;
mas logo cuidava ouvi-la dar risada, infernal passando por cima
das ruinas de cidade deserta. O patibulo e os delirios amorosos;
o cheiro do sangue e o halito dos banquetes misturavam-se-lhe no
senso intimo: e o pobre monarcha, nos seus desvarios, perdêra
a consciencia do logar, da hora e da situação em que se achava
naquelle terrivel momento.
Mas um beijo ardente, dado nessa mão que tinha estendida, e lagrymas
ainda mais ardentes que a regavam foram como faisca electrica
revocando-o á razão e á realidade da vida.
A commoçào indizivel e mysteriosa que sentira fez-lhe abaixar
os olhos: a rainha estava a seus pés: era ella quem lhe cobria
a mão de beijos e lh'a regava de lagrymas.
D. Fernando affastou-a suavemente de si: ella alevantou o rosto
celeste orvalhado de pranto; era de feito a imagem de uma das
martyres que elle via no seu imaginar da infância. D. Leonor
ergueu as mãos supplicantes com um gesto de profunda angustia:
então era mais formosa que ellas.
"Ah!"--murmurou elrei:--"porque é o teu coração implacavel, ou porque
te amei eu tanto?!"
"Desgraçada de mim!--acudiu D. Leonor entre soluços.--O teu amor
era como o iris do céu: era a minha paz, a minha alegria, a minha
esperança; mas desvaneceu-se e passou: a vida de Leonor Telles
desvanecer-se-ha e passará com elle!"
"É porque sabes que esse amor não póde perecer; que esse amor
como um fado escripto lá em cima--interrompeu D. Fernando--que
tu me fazes tingir as mãos de sangue, para satisfazer tuas crueis
vinganças: é porque sabes que eu esgóto sempre o calix das ignominias
quando as tuas mãos m'o apresentam, que tu me sacias de deshonra.
Terás acaso algum dia piedade daquelle que fizeste teu servo,
e que não póde esquivar-se a ser tua victima?"
"Oh quanto és injusto, Fernando, e quão mal me conheces!--exclamou
Leonor Telles limpando as lagrymas.--Foi a tua dignidade real, a
tua justiça, o teu nome que eu quiz salvar da tua propria brandura.
Aos mesquinhos que me offenderam perdoei de todo o coração; mas
tu, que eras rei e juiz, nào o podias fazer. Se o nome de teu
virtuoso pae ainda hoje lembra a todos com veneração e amor, é
porque teu pae foi implacavel contra os criminosos, e aquillo em
que pões a deshonra e a ignominia, é a coroa de gloria immortal
que cérca o seu nome. Se as minhas palavras te constrangeram a
escolher entre a confirmação dessa fatal sentença e a deslealdade
e blasphemia, que não cabem em coração e labios de cavalleiro,
foi por te salvar de ti mesmo. Se crês que nisto fui culpada,
dize-me só--Leonor, já não te amo!--e eu ficarei punida; porque
nessas palavras estará escripta a minha sentença de morte! Possas
tu depois perdoar-me, e proferir sobre a campa da pobre Leonor
uma expressão de piedade!"
As lagrymas e os soluços parecia não a deixarem proseguir. Reclinou
a cabeça sobre os joelhos d'elrei, apertando-lhe a mão entre as
suas com um movimento convulso.
Formosa, querida, humilhada a seus pés, como resistiria o pobre
monarcha? Unindo a face áquella fronte divina, só lhe disse:--oh
Leonor, Leonor!--e as suas lagrymas misturavam-se com as della.
Durante esta lucta da dor e da hypocrisia, em que, como sempre
acontece, a ultima triumphava, o conde de Barcellos e D. Gonçalo
Telles tinham-se encostado á janella fatal que dava para o rio,
e que tambem dominava grande porção do arrabalde occidental da
cidade. O espectaculo da noite era de melancholica magnificencia.
A lua caminhava nos céus limpos do nuvens, e pela face da terra
nem suspirava uma aragem. A claridade do luar refrangia-se nas
aguas, mas esmorecia batendo na povoação, na qual não achava,
além dos antigos muros, uma parede branqueada, uma pedra alva onde
espelhar-se, ou um sussurro do lesta acorde com as suas harmonias.
O incendio e o ferro tinham passado por lá, e Lisboa era um cahos
de ruinas, um cemiterio sem lapides. Apenas no extremo do seu,
d'antes, mais rico e povoado arrabalde amarelejava pulido pelo
tempo o gothico mosteiro de S. Francisco juncto de sua irman mais
velha a igreja dos Martyres. No valle que ficava em meio a luz
do cima embebia-se inutilmente na povoação que jazia extincta.
A bella lua de maio, tão fagueira para esta cidade querida,
assemelhava-se á leôa, que voltando ao antro acha o seu cachorrinho
morto. A pobre fera ameiga-o como se fosse vivo, e vendo-o quedo,
indifferente, e frio, não o crê, e vae, e volta muitas vezes
renovando seus inuteis affagos. Lisboa era um cadaver, e a lua
passava e sorria-lhe ainda!
Mas no meio daquelle; chão irregular, negro, callado, viam-se
aqui e acolá luzinhas que se meneavam de um para outro lado, ao
que parecia, sem rumo certo. Era que os frades de S. Francisco e
de S. Domingos faziam procurar por entre os entulhos as reliquias
dos mortos, para lhes darem sepultura christan. Neste piedoso
trabalho, que seguiam sem descontinuar havia muito tempo, eram
acompanhados por alguns do povo, que para se esforçarem cantavam
uma cantiga pia, cujas coplas, bem que interrompidas, vinham
com triste som bater de vez em quando nos ouvidos dos dous
cavalleiros. Resavam as coplas:
D'amigos e imigos,
Que ahi são deitados,
Levemos os ossos
Ao chão dos finados.
Ave Maria!
Sancta Maria!
Madre gloriosa,
Dess'alta ventura
Demovei os olhos
Á nossa tristura.
Ave Maria!
Sancta Maria!
Ao bento Jesus,
E ao padre eternal
Pedi que perdoe
A quem morreu mal.
Ave Maria!
Sancta Maria!
Esta longinqua toada perdeu-se no som de outra bem diversa, que
se alevantou mais perto dos dous cavalleiros. Uma voz esganiçada
dava o seguinte pregão:
"....Justiça que manda fazer elrei em Fernão Vasques, João Lobeira
e Fr. Roy: que morram na forca, sendo ao primeiro as mãos decepadas
em vida."
Os cavalleiros abaixaram os olhos para o logar d'onde subíra
a voz: era no terreiro proximo: os três padecentes e o algoz,
cercados de alguns bésteiros, aproximavam-se do cadafalso: varios
vultos negros fechavam o prestito: daquella pinha partira a voz
do pregoeiro.
Este pregão, dado a horas mortas e n'uma praça deserta, parecia
um escarneo. Mas o corregedor da côrte era affamado jurisconsulto
e nós temos ouvido a alguns que na execução das leis as fórmas
são tudo. Assim piamente o cremos.
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